A Salamanca
onde se vende a alma por um talento
Em Santiago del Estero, chama-se de salamanquero o músico ou bailarino de talento raro, porque só um pacto com o Zupay, o diabo, explicaria tanta habilidade. O convite vem pela música, um bombo soando campo adentro onde ninguém mora. Para entrar é preciso renegar a fé e atravessar uma caverna de sussurros, mãos e bichos. Lá dentro, o pedido é concedido em troca da alma.
Em Loreto, ouvi muitas vezes a história dos caçadores que perseguem uma vizcacha monte adentro, sempre errando o tiro, até escutar música de uma festa impossível. Alguns entendem o recado e voltam.
Na música · Convite Salamanquero · El que se Ríe es el Diablo
A Telesita
la santa de los perdidos
Telésfora Castillo era uma jovem órfã que andava descalça pelo monte no século XIX, pedindo pouso e comida. Sua paixão era a dança: quando ouvia o bombo anunciando uma festa, chegava e bailava até o amanhecer. Conta-se que, numa noite fria, dormiu perto de uma fogueira que virou incêndio, e decidiu dançar até o fim.
Até hoje se fazem telesiadas, rezabailes para pagar promessas: sete meias chacareras, um trago de aloja a cada uma, e depois o baile segue até a exaustão.
El Almamula
o grito que gela a alma
Um animal parecido com uma mula, que corre arrastando correntes e solta fogo pelos olhos e pela boca. O grito mistura o de uma mulher aterrorizada e o de um porco sendo sacrificado. Um conhecido me contou que, trocando um pneu numa estrada rural de madrugada, ouviu esse grito três vezes, cada vez mais perto.
Em 2017, gravando o disco, acordei de madrugada com um grito assim, chegando cada vez mais perto. Era um galo, cantando do jeito mais estranho que já ouvi.
Na música · Pa los Pagos de Loreto
Kakuy
a ave que chora pelo irmão
Kakuy e Turay eram irmãos órfãos criados no monte. Cansada das intenções do irmão, ela passou a recebê-lo com descaso. Um dia Kakuy a levou ao topo de uma árvore milenar, prometendo o melhor mel do mundo, desceu quebrando todos os galhos e sumiu. Sozinha lá em cima, ela se transformou numa ave de canto triste, noturna e camuflada, que até hoje chama pelo irmão.
É o urutau, que em partes do Brasil chamamos de mãe-da-lua. Nas escolas rurais, eu sempre perguntava se alguém já tinha visto um.
Na música · Pa los Pagos de Loreto
Tanicu
o primeiro domingo de outubro
Em Salavina, no primeiro domingo de outubro, as famílias montam mesas fartas na frente de casa. É o dia em que passa o Tanicu, um homenzinho magro e faminto. Onde encontra comida, abençoa a casa com um ano de fartura; onde não encontra, fica e traz um ano de escassez. Cozinha-se para sobrar.
Fui ao festival com amigos que nunca tinham ido, eu de guia. Nos perdemos no salitral, chegamos de noite, acampamos e vimos a terra subir em nuvem com os pés dos bailarinos.
Na música · Nidito Santiagueño
O primeiro de agosto
té de ruda macho
Agosto é mês de mal agüero: seco, ventoso, de muita doença. Para recebê-lo, toma-se no dia primeiro um chá de arruda macho. Dizem as avós que quem passa agosto ganha mais um ano de vida.
Na música · Nidito Santiagueño
La muerte del angelito
não se chora, se dança
Quando morre uma criança muito pequena, ela vira um angelito. Não se deve chorar, porque as lágrimas molham suas asinhas de papel. Faz-se uma noite de música, com rezadeiras cantando alabanzas, e ao amanhecer pais e padrinhos dançam chacareras com muitas voltas, para que o vento o leve ao céu.