Marcos Saporiticanto y camino Contato
Crônicas

Caminhos que escolhi

Os textos do blog Canto y Camino, reunidos aqui como foram publicados entre 2016 e 2017: histórias vividas em Santiago del Estero e em Loreto, na busca pela chacarera.

27 de fevereiro de 2016

Sobre o “Caminhos”

A vontade de contar algumas das tantas histórias que vivenciei – e sigo vivenciando – em busca da chacarera é a principal motivação para o surgimento do blog Caminhos que eu escolhi. Essas histórias foram fundamentais para que eu começasse a entender e sentir a chacarera, o folclore, a cultura e costumes populares dos santiagueños. É resultado dessas expêriencias o trabalho que vem sido desenvolvido pelo Duo Saporiti – Querim, formado por mim e Querim Zanette, músico de Vacaria, além de outros músicos e bailarinos convidados

Também é um espaço para fomentar essa cultura tão rica através de lendas, mitos e crenças, compartilhando informações e conteúdos de outros sites referentes no assunto.

Será uma alegria ter a tua presença e tua interação. “Abra la puerta y entre a mi hogar”.

Marcos Saporiti

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1 de março de 2016

Introdução

Longe de mim qualquer anseio por textos rebuscados e linguisticamente caprichados. Meu objetivo é contar histórias que, até então, tinha apenas guardadas na minha memória e que carregam um valor inestimável.

Em 2014 vivi duas temporadas em Santiago del Estero. Uma delas era para durar talvez sete dias e terminou durando mais de 20, em fevereiro daquele ano. Voltei a Porto Alegre. Minha cabeça ficou em Santiago del Estero. Foram meses de certa angústia por querer estar lá e ter que estar aqui, em Porto Alegre. Andava apreensivo e com muita dúvida sobre voltar ou não a Santiago. Não saberia quanto tempo ficaria, se me adaptaria – apesar de já haver conhecido a cidade – se conseguiria trabalhar. Eram várias perguntas que eu só as responderia indo. E fui!

Cheguei 24 de julho de 2014 e fiquei quase sete meses. Vivi histórias que nunca imaginei viver, conheci muita gente, fiz muitos amigos, aprendi muito mais do que imaginava que aprenderia. Desde conhecimentos sobre cultura e folclore local até valores de vida, de amizade e humildade. Os textos que serão postados são frutos do muito que aprendi em Santiago del Estero. Tenho um carinho muito grande pelo povo santiagueño que me recebeu de braços extremamente abertos, com a mesa posta com tortilla, chipaco e mate dulce. Espero que tu, leitor, sintas um pouco do que é Santiago del Estero e da chacarera através dessas humildes versões de histórias vividas por aqueles pagos. Boa viagem, amigo!

“Forastero que vá / Siempre quiere quedarse / Y del suelo querido / Suele prendarse, ay, ay, ay, si, si!” (Los Hermanos Ábalos)

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8 de março de 2016

Chegando em Santiago del Estero

Dia quatro de fevereiro de 2014, eu chegava à província de Santiago del Estero, norte da Argentina. Viajava sozinho, minha única companhia era meu violão. Trazia junto comigo uma caneta e um caderno que já, àquela altura da viagem, guardava alguns registros, algumas ideias. Não conhecia ninguém em Santiago, não sabia onde dormiria, nem onde iria, mas sabia o que eu procurava: a chacarera e justo no lugar onde ela havia nascido.

Cheguei cedo, ainda sem lugar para descansar. Na própria rodoviária arranjei um mapa da cidade com algumas dicas de hotéis e pousadas. Passei por vários até chegar no  Residencial Santa Rita, na calle Santa Fé, quase esquina com Pedro León Gallo. O quarto era bem simples. Cabia uma cama, um pequeno armário e, claro, um ventilador. Ali deixei minhas coisas e logo saí para caminhar. Santiago del Estero não é uma cidade aparentemente encantadora. Já as nove horas da manhã a temperatura passava dos 35 graus. Ao meio dia já eram 39. O sol ardia, eu caminhava tentando encontrar uma biblioteca ou uma livraria para começar minhas pesquisas.  Pois, achei uma livraria chamada Utopia bem próximo à praça Libertad, no centro da cidade. Contei minha história a uma funcionária e pedi algumas dicas. Fui indicado a voltar de tarde, turno em que estaria outra funcionária que poderia me ajudar.

Saí da livraria e comecei a andar sem rumo. O calor era tremendo, a cidade já estava deserta, havia muita terra. Continuei caminhando e pensava “o que é que eu estou fazendo aqui? Não vou aguentar três dias nessa cidade.” Era justamente horário da famosa siesta santiagueña. Das 13h às 17h, talvez, 18h, nada funciona. O comercio está totalmente fechado. Claro que depois eu fui entender esse hábito totalmente motivado pelo calor do verão.  Resolvi voltar à pousada e descansar, afinal, tinha sido uma viagem longa.

De tarde voltei à livraria, como me haviam recomendado. Fui muito bem recebido e logo expliquei minhas expectativas em Santiago del Estero, contei que viajava solito buscando a chacarera. Perguntei onde poderia viver o folclore santiagueño, bares, músicos. Ela me indicou algumas peñas – festas folclóricas – que aconteceriam durante aquela semana. Em seguida lhe ocorreu algo: “aguantame un segundo que voy a llamar un amigo músico”.  Pegou seu telefone e ligou: “Mirá, estoy con un brasileño que quiere aprender la chacarera“. desligou o telefone e me disse: “Me ha dicho que vayas. Que te está esperando”.  Me deu um bilhete com o endereço. A funcionária era a Luciana Aznares, que algum tempo depois, se tornou uma amiga e a quem sou muito grato por tudo que ela me possibilitou. O músico era Ale Carabajal. Saí da livraria direto para sua casa.

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16 de março de 2016

Ale Carabajal

Cheguei ao endereço indicado, também na calle Santa Fé, distante talvez dez quadras do residencial onde eu estava dormindo. Bati palmas um par de vezes. Um jovem, aparentando a minha idade, apareceu. Perguntei se ali vivia Ale. Eu esperava um músico folclorista com grande vivência e experiência. “Si, soy yo, hermano. Pasá!” Não era o estereótipo de folclorista que eu fantasiava encontrar na minha busca pela chacarera. Bueno, não até sentar e escutar o que ele tinha para me contar.

Me acomodei enquanto Ale preparava um mate dulce. Botou a água para esquentar, pegou um par de folhas em branco, uma caneta e se sentou. Em pouco mais de uma hora, me havia explicado o rasguido da chacarera, sua origem e contado sobre músicos santiagueños que, até então, eu não conhecia. Interrompeu as explicações somente para apagar o fogo e servir uns mates.

Com a letra de Hermano Kakuy, me explicou a estrutura da chacarera simples. Cuidadosamente, me contava sobre a letra inspirada em uma das mais conhecidas lendas santiagueñas. Lia todos os versos pausadamente me explicando o sentido de cada estrofe. Com a mesma atenção, abordou Añoranzas para explicar-me a chacarera doble. No verso da folha, escreveu a Apología a la Chacarera, de Julio Argentino Jeréz, poesia frequentemente  declamada antes de entonar os primeiros veros de Añoranzas.  Com a letra de Chacarera del Pátio me mostrou a trunca. Da mesma maneira, me explicava o sentido de cada verso, cada estrofe. Já era suficiente para dar-me conta de que Ale sabia muito.

Durante aquele verão ainda convivemos muito. Todo os dias eu ia a sua casa. Algumas vezes, com dúvidas maduras, outras, apenas para escutar, guitarrear. Por simplesmente estar. Era impressionante a paciência que ele tinha para me ensinar, corrigir e contar histórias. Alguns meses depois, quando voltei a Santiago del Estero, ele me recebeu em sua casa, onde fiquei por um mês. Se tornou um grande amigo e até hoje é muito importante no meu contínuo aprendizado sobre a cultura e folclore santiagueño. Sigo consultando-o sempre que tenho alguma dúvida ou quando quero mostrar-lhe algo. Dono de uma voz ímpar, uma musicalidade única e raro talento. Un amigazo!

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22 de março de 2016

A ESQUINA

Uma das minhas vontades era buscar alguma escola de música onde eu pudesse também aprender o folclore de uma maneira mais formal. Fui aconselhado a procurar a E.S.P.E.A (Escuela Superior del Profesorado de Educación Artística) onde encontraria bons professores. Fui logo apresentado para docentes e diretores que me autorizaram a assistir às aulas. No meu primeiro dia no profesorado, tive aula com um brasileiro do qual muito já havia escutado falar. Paulinho, se chamava. Me recebeu muito bem, pediu que me apresentasse para a turma e logo me intimou para que tocasse uma chacarera. Toquei La Pucha con el Hombre, um escondido, na realidade. A turma, surpresa e atenta, me aplaudiu, mesmo que não tenha sido uma grande interpretação.

Depois da aula, Martin – um dos meus colegas – se acercou me convidando para que me juntasse a eles, justo ao lado do profesorado, numa esquina. “Allá tomamos una cervecita y guitarreamos“. Meio acanhado, cheguei. Chango, que guitarreada! Justo ao lado de um kiosko. Comprávamos um par de cerveja a cada tanto. Eu mostrava um pouco da música do Rio Grande do Sul, quase sempre através de temas de Noel Guarany, tocava algo de Atahualpa Yupanqui. Canción para doña Guillerma era a minha preferida. Dessa maneira, ilustrava algumas semelhanças entre o sul do Brasil e a Argentina. Meio atrevido, toquei, ainda, Desde el Puente Carretero, Hermano Kakuy, entre algumas outras que mais ou menos sabia tocar. Era muito interessante toda a atenção deles me observando enquanto eu tocava, como era o meu acento e, claro, aquela curiosidade: “Chango y por qué Santiago del Estero? Por qué la chacarera?” Eu não tinha noção disso, mas era evidente a alegria deles em saber que alguém de fora estava tão interessado em aprender a música santiagueña. E talvez por isso é que tenha havido tanta conexão, já desde a primeira juntada.

Seguimos guitarreando. Eles me mostrando outros temas que ainda não conhecia. Se passaram tocando chacareras, zambas, gatos e escondidos. Me dei conta que estava conhecendo pessoas muito talentosas e de grande coração.

Eu ia de duas a três vezes por semana ao profesorado. Sempre que chegava ou saía de lá, dava uma espiada para ver se eles estavam na esquina, guitarreando. Para mim, era o momento mais esperado da semana. Eu aprendia muito naquelas guitarreadas. Observava e, algumas vezes, me atrevia a pedir alguma dica sobre movimentos da mão direita. Eles me mostravam com muita paciência, sempre.

Que impressionante era ver Facu tocando chacareras no violino. A maneira como Yvan tocava a guitarra criolla entonando chacareras. Tinha um lindo rasguido. Pedro e Nico alegrando a noite já meio borrachos fazendo um enganchado de guarachas santiagueñas. Que voz tinha a Pitu cantando zambas. Piru, Cami, Juanchy. Martin com tremenda habilidade para fazer ótimas e oportunas piadas. Todos sempre juntos naquela esquina. Guitarreando, charlando, sendo felizes. Que grandes amizades. Cultivadas com muita música. Muita.

Foram inúmeras vezes que saímos depois da última aula da noite para guitarrear e tomar alguito. E também foram muitas as noites que nos escapamos das primeiras aulas para nos juntarmos e compartilhar música, conversas, risadas.

Que saudades dessas guitarreadas! Que saudades daquele kiosko, daquela esquina.

*“Es oro la amistad / que no se compra ni vende / solo se da / cuando en el pecho se siente/ no es algo que se há de usar / cuando te sirva y nada más.”

* Entre a mi pago sin golpear

(Letra de Raúl Pablo Trullenque / Música de Carlos Carabajal)

Duo Saporiti – Querim (16 de maio de 2015)

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28 de março de 2016

PARA OS LADOS DE LORETO

Em Santiago del Estero, conheci muitos artistas, folcloristas sempre dispostos a ajudar na minha busca pela chacarera, que em determinado momento, já havia se transformado em uma busca pela cultura local, de maneira geral. Uma das experiências mais construtivas foi proporcionada pelo professor rural Martin Medina, natural de Termas de Rio Hondo. Ele me levou para talvez dez escolas rurais no departamento de Loreto, 60 quilômetros ao sul da capital Santiago del Estero. Para chegar a algumas dessas escolas, ainda tínhamos que andar aproximadamente 30 quilômetros campo adentro, em moto.

Eu queria conhecer os “montes santiagueños”, poder enxergar tudo aquilo que era cantado nas chacareras, paisagem e costumes tão bem descritos por poetas. Sem querer, me dei conta que poderia não só adquirir, mas deixar alguma “coisinha” minha para aquela gente tão querida. Então, nas salas de aula e nos pátios das escolas, a pedido de Martin, comecei a contar e cantar sobre minhas experiências, sobre meu pago.

Que lindos momentos eu vivi para aqueles lados de Loreto. Me lembro de cantar meu pago e um par de chacareras, sentadito à sombra de um quebracho branco para alunos de Santa Bárbara. Depois, escutar os changuitos de talvez dez anos de idade tocando na gaita piano Añoranzas e um par de chamamés mais que infelizmente não recordo o nome.

Nas escolas, ouvi muito do que tinham para me contar. Ainda que tímidos, me contavam sobre os seus costumes, lendas, mitos, assombrações e bruxos. Com muito respeito, sobre a Salamanca. Todas essas histórias são constantemente citadas na música santiagueña. Escutá-las diretamente daquela gente do campo, causava arrepios. Citavam alguns lugares onde os estranhos acontecimentos eram mais frequentes. Alguns desses lugares ficavam a pouquíssimos quilômetros daquelas escolas.

É impossível retribuir a essas pessoas tanto carinho que eu recebi. Com eles, eu aprendi muito. Encontrei muito mais do que imaginava. A maneira como valorizam as coisas simples da vida é o maior aprendizado que carrego. Nasci e me criei em uma cultura muito diferente, mas sei que se eu apenas tentar viver como eles, vou ser muito melhor do que sou hoje. Lembro de alguns amigos santiagueños me dizendo: “la gente del monte es así: pueden no tener nada pero igual te ofrecen todo lo que tienen”.

Dessas experiências, nasceu a música Pa los pagos de Loreto, de minha autoria. Antes de terminá-la, a letra passou pelos olhos de folcloristas e docentes santiagueños e recebeu ajustes do querido Chingolo Suarez. Un abrazo, amigo!

Pa los pagos de Loreto
Chacarera Trunca
Letra e Música de Marcos Saporiti
De Santiago hasta Loreto
Me ha llevado un amigo
Pa que contase a la gente
Un poco de lo vivido

Yo he llevado un poquito
De la cultura de mi pago
Y he traído histórias
De los montes de Santiago

Los Gritos del alma-mula
La Salamanca, el Supay
Espantos y brujos del monte
Y el Kakuy con su Turay

Que lindo haber compartido
Con tanta gente querida
Por San Juan, Crucecitas,
Santa Bárbara y Lomitas

Con mates y con tortilla
Nos ha recibido Divina
Y Doña Evarista contaba
Histórias de su larga vida

De su abuelo que a la fuerza
A la guerra lo han llevado
Y al estar en desacuerdo
Un buen dia se ha escapado

Lo poquito que sé yo
Alegre lo he compartido
y mis humildes versiones
canto a ese pago querido

Que lindo haber compartido
Con tanta gente querida
Por San Juan, Crucecitas
Santa Bárbara y Lomitas

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11 de abril de 2016

DOÑA EVARISTA

Durante a visita à escola de Lomitas, também em Loreto, o professor Martin chamou um de seus alunos para conversar e me deixou em sala de aula com os outros que, muito atentos, me escutavam. Fiz algumas perguntas que eram timidamente respondidas, mas que muito me satisfaziam. Em poucos minutos, Martin e Leo, seu aluno, voltaram à aula e nos convidaram para conhecer a casa de Leo, a talvez um quilometro da escola. No caminho, os alunos me mostravam as plantas nativas. Me apresentaram quimiles e tunas. Para mim, eram iguais. Então eles me levavam perto de cada uma e apontavam as diferenças. Uma com mais espinhos e mais finos, a outra com menor quantidade e maiores. Me atentavam para espinhos no caminho para que eu não me machucasse. Eu aproveitava que andava monte adentro para procurar algum kakuy. É verdade que também quase tapava os ouvidos para não escutar nenhum bombo leguero ou sinal de música festiva. Poderia ser um convite da salamanca. De qualquer forma, aquela hora, era pouquíssimo provável que eu fosse encontrar qualquer um dos dois. Nem salamanca, nem o kakuy costumam aparecer de dia.

Chegamos à casa de Leo. Nos recebeu sua mãe, Divina, com mate dulce y tortilla e, claro, com um sorriso imenso. “Me imaginé que podrían pasar por casa y preparé una tortilla”. E que buena que estava aquela tortilla. Em poucos minutos de conversa, chegou uma senhora, já idosa, caminhando com ajuda de uma bengala. Era Doña Evarista, bisavó de Leo. Me recordo aquela voz doce dizendo: “yo estoy por cumplir cien años. Pero cien años de registrada. En aquel tiempo, se tardaba más para hacer esos trámites de registro. Sobretodo con la gente del campo. Yo ya deberia tener como 16 años cuando he sido registrada”.

Entre tantas histórias de sua longa e interessante vida, Doña Evarista nos contou sobre o seu avô. Apontava para uma pintura que estava na parede, atrás dela. “Ese era mi abuelo. Tomando un mate”. Nos contava que ele havia sido recrutado para lutar na Guerra do Paraguai. Contrariado aos motivos da guerra, fugiu a pé. Matava a sede com líquido de plantas que encontrava no caminho. Quando sentia o solo tremer, se escondia campo adentro até que se acalmasse a situação. Sabia que o estavam buscando a cavalo.

Doña Evarista já não enxergava muito bem e ouvia pouco. Mas tinha enorme lucidez em sua fala. Contava que pouco usava o idioma quichua. Quase sempre para repreender um dos netos ou bisnetos.

Saquei meu violão, toquei um tema de Atahualpa Yupanqui e logo outro mais. Ela agradeceu muito a visita e as canções. Como se ela tivesse que agradecer algo. Eu vivia uma das experiências mais bonitas da minha vida. Escutar no meio del monte santiagueño a uma senhora de aproximadamente 116 anos contando histórias da vida que ela levava naqueles pátios de terra era definitivamente uma experiência de inestimável valor. Quase todo o tempo eu me arrepiava. Muitas vezes meu olhos se enxiam de lágrimas, no melhor sentido. Ao final, já nos despedindo, pousamos para uma foto. Me avisaram que ela gostava muito de chacarera. Ali mesmo, pousando para a foto, toquei Desde el Puente Carretero. Martin me acompanhava nas palmas e segunda voz. Naquela hora me enxergava na estrofe que diz: *”por nada olvides, viajero / lo que sienten mis paisanos / seguro te han de querer / como se quiere a un hermano.”

Eu estava justamente vivendo tal estrofe.

*Desde el Puente Carretero (Letra de Carlos Carabajal / Música de Peteco Carabajal)

Doña Evarista

Com Doña Evarista e Martin Medina – sentados – Divina e alunos de Lomitas

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9 de maio de 2016

NO RANCHINHO DE MAFÚ

A primeira visita que fiz às escolas rurais de Loreto foi ao Agrupamiento San Gregorio. Tratava-se de um encontro sobre os povos originários e suas culturas. Fomos, além de Martin e eu, Nico Villaba, Pedro Isaac e Facu Farias. Todos eram colegas de Martin no profesorado de música em Santiago del Estero. Tremendos músicos. Estávamos armados de bombo leguero, dois violões e violino. Durante o caminho, Martin colocava algumas chacareras, escondidos, gatos e zambas que falavam sobre lugares que cruzávamos. Lembro de passar por Villa Atamishqui escutando as sacha guitarras e, se bem lembro, La Tentación, música de Elpídio Herrera, atamishqueño.

Depois de assistir a uma breve palestra sobre os povos originários, Martin me convidou para que falasse à comunidade sobre minha caminhada, sobre cultura do meu país e o que eu andava fazendo por Santiago. Era a primeira vez que eu contava algo para tanta gente. Logo que comecei a falar, alguns alunos começaram a rir discretamente por causa do meu sotaque. Achei divertido e segui. Na hora de tocar, me senti um tanto nervoso a ponto de não executar muito bem o tema que queria. Fandango na Fronteira de Noel Guarany e Cenair Maicá era. Depois tocamos meio improvisado umas quatro ou cinco chacareras com Nico, Pedro, Facu e Martin. Compartilhamos algumas conversas com alunos, docentes e pessoas daquela comunidade. Eram sempre muito atenciosos. Em seguida, saímos da escola e fomos visitar Mafu, um amigo de Martin. Eu ainda não o conhecia.

Chegamos a um ranchinho bastante humilde. Nos recebeu Mafú com mates enquanto sua senhora nos preparava umas empanadas caseiras e tortillas. Caminhamos um pouco pelo rancho de Mafú. Uma pequena casa de barro, algumas cabras ao fundo do pátio. Lindo pátio de terra. Bem santiagueño. O sol se pondo ao fundo. Era o famoso inciendo del poniente tão bem descrito por Jacinto Piedra. Em seguidinha, sentamos para guitarrear. Era para ser uma breve visita que, depois de um par de chacareras, se tornou uma tremenda guitarreada. Mafú saiu para comprar cerveja. Várias. E um par de vinhos também. Eu tocava algo de Atahualpa Yupanqui e todos me olhavam bastante atentos e surpresos. Me felicitavam e agradeciam por eu estar tão interessados pela cultura deles. Recém nos conhecíamos. E da melhor maneira: com música.

Íamos trocando instrumentos, cantando com alegria. Era impressionante ver Facu tocar seu violino. Eu começava a viver algo que nunca imaginei que viveria. Aquilo era Santiago del Estero na sua pura essência. El embrujo de Santiago del Estero. Guitarreamos por horas. Todos somos muito gratos a Mafú e sua família por nos brindar tamanha noite. Nos despedimos quase já de madrugada. E bueno, já em Santiago, seguimos umas horas mais na casa de Pitu, também do professorado. Nico e Pedro, ainda com muita energia,  se passaram tocando guarachas santiagueñas. Que linda noite.

*“Se habré bebido estrellas / Que a mi vaso bajaban / En la noche de amigos, / Pátio, coplas, guitarra”

*Chacarera del Pátio

(Letra de Raul Pablo Trullenque / Música de Carlos Carabajal)

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11 de julho de 2016

A PRIMEIRA APRESENTAÇÃO EM SANTIAGO – 2014

Era meio de outubro e eu andava curto das economias. Fui ao Café de la Buri Buri, na Livraria Utopia, perguntar se havia possibilidade de tocar alguma noite no bar. Para minha surpresa, havia data disponível na mesma semana. Meio inseguro, agendei a data, divulguei e, ansioso e nervoso, esperei chegar o dia. Preparei violão, cabos, letras, cheguei cedo e… Não havia ninguém! Apenas a Luciana, que recém saía do trabalho na livraria, e os funcionários da Buri Buri. Bueno, era cedo ainda, seguramente logo chegariam outros.

Passaram-se largos minutos. Chegou Ale Carabajal, sozinho. Eu estava apreensivo. Já era hora de começar o meu primeiro show intitulado “Marcos Saporiti canta: el paisaje del gaucho brasileño” e haviam duas pessoas no bar. Tantas coisas se passaram na minha cabeça naquele momento. Resolvi esperar mais um tanto. Passaram-se 45 minutos e não chegou absolutamente ninguém. Aquela situação me deixou muito abalado psicologicamente. Eu já estava por guardar minhas coisa e ir embora sem tocar. Olhava para Ale e para a Lu um pouco envergonhado pela situação. Nos momentos de ansiedade que antecedem o dia da apresentação, imaginam-se diversas situações que podem vir a ocorrer. Em nenhum momento, se quer cogitei que não tocaria por falta de público. Então, pensei que era hora de voltar para a minha casa em Porto Alegre, repensar sobre a vida de músico e talvez buscar outra atividade. Aquilo não era para mim e se fazia notável naquela noite.

Foi justo nesse momento que chegaram, talvez, 15 amigos meus do professorado: “chango, estabamos rindiendo”. Me contaram que estavam em prova e por isso demoraram. Sorri uma mistura de nervosismo, constrangimento e, obviamente, alívio. Finalmente eu tocaria. O lugar era pequeno. Agarrei imediatamente a guitarra e desferi os primeiros rasguidos e acordes. No repertório, músicas do cancioneiro gaúcho fronteiriço. Eu sempre explicava do que se tratavam as músicas em português, para que eles pudessem entender ao menos algum pouquinho. Foi uma noite emocionante de música e charla sobre culturas as vezes tão parecidas, outras vezes tão diferentes.

No fim das contas, não ganhei um centavo, mas ganhei muito mais do que qualquer dinheiro poderia me dar aquela noite. Tive a certeza de amizades sinceras e também a certeza de que tinha escolhido fazer o que amo. Aquela noite, ao fim, se estendeu até altas horas já na casa da Lu, onde naquela época eu já morava. Tremenda guitarreada armamos.

Eu fiz questão de contar para eles na mesma noite e alguma outra vez, meses depois, sobre a importância da presença deles naquela apresentação. Que minutos antes deles chegarem eu só pensava em voltar ao meu país e buscar algo novo para trabalhar. Com segurança eu digo que esta noite foi uma das mais importantes e emocionantes que vivi. Sou eternamente grato a todos os que estavam presentes. Fizeram diferença na minha vida. Toda diferença!
Aqui deixo alguma das músicas daquele repertório:

Fandango na Fronteira

Balseiros do Rio Uruguai

À Primeira Vista (talvez um dos momentos mais emocionantes daquela noite)

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9 de outubro de 2017

CANCIÓN DE PEDRITO

A Canción de Pedrito, primeira faixa de Canto y Camino, foi inspirada em três momentos: As andanças pelas escolas rurais de Loreto – Santiago del Estero – Argentina em 2014 / 2015; o livro de Jorge W. Ábalos – SHUNKO e, a principal delas, uma parede pintada na escola de Taquetuyoj – Santiago del Estero.

As andanças foram iniciativa do maestro rural Martin Medina. Algumas dessas histórias serviram de inspiração para outros temas. No caso de Canción de Pedrito, aconteceu na escola de Lomitas. Saímos para caminhar pelos senderos que levam da escola à casa de Leo, um dos alunos. Essa experiência está publicada aqui.

Shunko foi publicado em 1949. Conta a história de um professor provindo da cidade, recém chegado a uma escola rural de Santiago del Estero. Lá, ele tem contato com crianças quichua hablantes sem conhecimento do idioma espanhol. Há uma constante troca de aprendizado entre alunos e professor, não apenas na questão dos idiomas, mas também em costumes e saberes. O livro tornou-se leitura básica nas escolas da Argentina.

Em Taquetuyoj, uma das escolas visitadas com Martin Medina, me deparei com a seguinte parede:

Decálogo

Trata-se do Decálogo del Niño Rural. Lembro de ficar emocionado com a simplicidade da mensagem. Essa seguramente foi a fonte mais inspiradora para a Canción de Pedrito. Aqui descrevo:

1 – No te enojes por mis tardanzas. He recorrido muchos kilómetros para llegar a la escuela.

2 – En las frias mañanas de invierno déjame calentar mis manos y pies: siento frio y tengo hambre.

3 – No te enojes por mi zapatillas o alpargatas sucias, ellas están mojadas por el rocío del sendero.

4 – Enseñame a recortar mis uñas, me cuesta usar la tijera.

5 – No te enojes por no saber usar el lápiz, el es muy liviano y yo estoy acostumbrado a manejar objetos pesados.

6 – Enseñame a cantar el himno nacional, a usar la escarapela y a izar y arriar la bandera. Por más que sé poquito, soy argentino.

7 – No te enojes por faltar a clase una semana. Tuve que trabajar pues mi papá estuvo enfermo.

8 – Hablame de mis plantas y animales, después cuéntame las cosas que tu conoces.

9 – No te enojes porque no tengo cuaderno, el patrón no pagó y no pude vender mis cabritos.

10 – Ven a mi casa y visitarnos, mi perro no te hará daño; él sabe que me quieres. Déjame jugar, silbar, cantar, reír y correr en la escuela. Me espera mucho trabajo.

Tive a sorte de contar com esses bons amigos e excelentes músicos:
Luis Quiroga (Quena, sikus e voz), Faby Mansilla (voz), Martin Leguizamon(voz de Pedrito), Matias Ledesma (charango e baixo) e Martin Alcorta(percussão).

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8 de novembro de 2017

Sachaguitarra Atamisqueña

A sachaguitarra atamisqueña é instrumento criado por Elpídio Herrera e modernizado por um de seus filhos, Manolo Herrera.

Primeiro explico o nome. Sacha vem do quichua – ou quechua – idioma falado pelos Incas e levado até a região de Salavina, Santiago del Estero. Significa campo, ou monte, como dizem os santiagueños. Portanto, diz-se sachero a tudo aquilo ou aquele que vem do campo.

Villa Atamisqui é um pueblo de aproximadamente 5 mil habitantes, localizado na província de Santiago del Estero, 50km distante da cidade de Loreto.

Elpídio Herrera mora em Villa Atamisqui. Construiu primeiro a Caspi Guitarra (guitarra de palo, de madeira) com uma tábua de lavar roupa, de sua mãe. Em seguida aprimorou trocando a tábua por um porongo. Foi Sixto Palavecino quem sugeriu mudar o nome para sacha, homenageando as pessoas do campo.

Manolo Herrera, filho de Elpídio, fez algumas versões mais modernas da sachaguitarra, adaptando o arco , agora com crina dos dois lados para tocar a corda de cima e de baixo.
Essa sachaguitarra, usada na gravação da faixa 08 (Convite Salamanquero) do álbum Canto y Camino, foi batizada de X-10.

Há muitos vídeos das Sachaguitarras na internet. O último modelo criado por Manolo tem três braços. Na casa deles em Villa Atamisqui foi construído o Museu da Sachaguitarra, que conta toda a evolução desse instrumento autóctone de Atamisqui, um verdadeiro ícone de Santiago del Estero.

Entre em contato em caso de interesse em conhecer mais sobre a Sachaguitarra e a música de Elpídio e Manolo Herrera. Será un gusto conversar sobre o assunto.

CONVITE SALAMANQUERO (COM MANOLO HERRERA)

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Do blog · página

O que é a chacarera?

Não me prenderei a detalhes para explicar a chacarera, apenas abordarei características fundamentais. Nascida em Santiago del Estero, é uma dança de caráter alegre. Música e dança são praticamente inseparáveis, estão conectadas. Basta que algum guitarrero comece o rasguido e imediatamente se levantam os bailarinos esperando o “adentro”.

São instrumentos básicos o violão, o violino e o bombo legüero.

Também é frequente o uso de bandoneon e piano. Nos grupos mais recentes são usados baixo, bateria e guitarra elétrica.

Existem três tipos de chacarera: a simples, a doble e o aire. Qualquer uma delas pode ser trunca.

Nessa abordagem, para que fique compreensível a qualquer interessado, explico através das estrofes, tentando não me apegar a número ou fórmulas de compasso. Dessa maneira, não se faz necessário conhecimentos musicais para distinguir simples, doble e aire.

A chacarera está dividida em primeira e segunda partes iguais em sua estrutura. Isso é:

I

Introdução
Estrofe
Introdução
Estrofe
Introdução
Estrofe
Refrão

II

Introdução
Estrofe
Introdução
Estrofe
Introdução
Estrofe
Refrão

A diferença entre a doble e a simples está no número de versos por estrofe.

  • Simples – quatro versos por estrofe

Cuenta la gente
allá en el pago
lo sucedido
entre dos hermanos

(primeira estrofe de Hermano Kakuy)

  • Doble – seis versos por estrofe

Cuando salí de Santiago
Todo el camino lloré
Lloré sin saber por que
pero sí les aseguro
que mi corazón es duro
pero aquel da aflojé

(primeira estrofe de Añoranzas)

Também é comum repetir-se os dois últimos versos da estrofe:

Telsita huarmi sumaj
maipi tian yana flor
con carita de horizonte
de lluvia tu corazón
con carita de horizonte
de lluvia tu corazón

(primeira estrofe de Digo la Telesita)
https://www.youtube.com/watch?v=yF0f0ZZPH9E

Por consequência, a doble torna-se um pouco mais longa refletindo diretamente na dança. Acrescenta-se nada mais que alguns passos à coreografia.

  • O aire de chacarera é livre em versos e estrofes, e, por isso, não tem coreografia definida. Improvisa-se.

Llegan de noche
Gritos lejanos
rota la luna,
tiembla de miedo algun charco
De salamanca, llaman campanas
los hombres quieren matarse
enpuñando un arma

(primeira estrofe de Te voy a contar un sueño)

  • A trunca pode ser simples ou doble. A diferença está no final. Termina no terceiro tempo enquanto as outras, no primeiro.

Algumas palavras são bastante usadas nas chacareras:

  • “Adentro” (indica entrada da primeira estrofe de cada parte)
  • “Bueno” ou “Se acaba”  (no fim da última estrofe de cada parte. o primeiro é mais usado para fim da primeira parte e o segundo, para a parte II, quando de fato termina a música).
  • “Se vá la seguda” (anuncia segunda parte da chacarera)
  • “Otra”, “otrita” (se repete a introdução)

Como se dança?
http://www.encuentro.gov.ar/sitios/encuentro/Programas/ver?rec_id=113572

E por aí vai a chacarera! Não há melhor maneira de aprender do que vivê-la. Participar com palmas e, por suposto, dançando.

“Zapateale / Zarandeale”

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TRADIÇÕES, COSTUMES, MITOS E LENDAS

PRIMEIRO DE AGOSTO E O CHÁ DE ARRUDA

O mês de agosto traz consigo certo receio referentes a doenças, pestes, enfermidades. É um mês onde muita gente adoece, vem a óbito.  Acredita-se que tomar o chá de arruda – preparado preferencialmente a partir das plantas machos (folhas maiores) – assegura um ano mais de vida. Por isso há o costume de receber o mês de agosto tomando um bom té de ruda macho. De fato, escuta-se muito das abuelitas que “quem supera o mês de agosto, ganha mais um ano de vida”.

A arruda, quando colocada em frente a porta de casa, é usada para afastar mau-olhado, evitar o gualicho, quase sempre fruto da inveja alheia.

Primeiro de agosto também é conhecido por marcar o fim do período de seca. É dia de celebrar a pachamama (madre tierra). Se abre a terra para fazer oferendas e se pede licença para plantar.

Que venha agosto.

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Livreto Canto y Camino

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INTRODUÇÃO

São muitas as lendas, crenças e costumes espalhadas por toda a província de Santiago del Estero, localizada no norte da Argentina. É preciso fazer um exercício de afastar-nos do ritmo agitado da maioria das capitais em 2017 e imaginarmos a vida humilde no interior sanagueño. As grandes distâncias entre uma casa e outra, o difícil acesso às escolas rurais, o imenso calor, a sesta, o cuidado para não desperdiçar água, o solo seco e pouco fértil. Mas também há alegria em receber uma visita, tomar um mate dulce ou amargo acompanhado com tortilla, poder guitarrear e bailar por largas horas, ao som do bombo leguero, do violão, do violino, e do bandoneon.

Acredito que, dessa maneira, seja mais fácil ter a dimensão dessas histórias para poder melhor compreendê-las e desfrutá-las, sentir a mensagem de cada uma. Mas cuidado, porque é fácil voltar ao nosso ritmo e rotina acelerados e pensar que são apenas historinhas, às vezes bobas.

Escolhi as que acredito serem mais representavas dos lugares por onde andei e que por conseqüência, podem aparecer com mais freqüência nas letras que canto. Deixei outras de fora, com o pequeno cuidado de listar nas últimas páginas, caso haja interesse em pesquisar.

Esse livreto foi criado com a intenção de ser distribuído entre os apoiadores da campanha do disco Canto y Camino no site do Catarse. Após essa fase, decidi incorporá-lo como material complementar, de maneira gratuita, não sendo comercializado separadamente.

Todas as histórias aqui apresentadas fizeram parte da minha vivência e andança por Santiago del Estero. Foram escutadas de diversas pessoas, de diferentes lugares e com algumas versões um pouco distintas. Usei também os livros Cuentos y Leyendas Santiagueñas – costumes, creencias y mitos, de Chingolo Suarez; El país de la chacarera, de Walter Soles, além do site http://www.folkloredelnorte.com.ar para algumas dúvidas pontuais. Recomendo todos.

Sem mais, agradeço o interesse e espero que gostem. Ah! Não te esquece de levar tua imaginação para esse ambiente descrito acima. Fará toda a diferença. Un abrazo de chacarera! Marcos Saporiti

A SALAMANCA

Em Sanago del Estero é muito comum escutar expressões como músico ou bailarino “salamanquero”. Tal expressão é usada quando se quer dizer que determinado artista tem um talento raro, é virtuoso em algum instrumento ou sabe dançar com extrema habilidade. Diz-se salamanquero pois a única maneira possível para executar com tanta perfeição tais habilidades seria através do encontro e acordo com Zupay, o diabo: vende-se a própria alma em troca de alguma habilidade refinada, algum talento raro. Me lembro de ver alguns violinistas, guitarreiros tocando com perfeição seus instrumentos e logo em seguida escutar: esse só pode ser salamanquero!

A Salamanca, segundo relatos de santiagueños, ocorre campo adentro, em lugares inabitados e em regiões próximas a algum rio na província de Sanago del Estero. O convite é feito através da música. Escuta-se vindo desses lugares onde ninguém habita, alguma música convidava, às vezes um bombo leguero como que invitando para uma festa. Atraído pela música, o convidado chega até o local onde logo se depara com muitas mulheres, bebidas e tudo que for necessário para gozar os prazeres da vida.

Para entrar na festa pagã, o convidado tem que provar desde o início estar disposto a negar qualquer relação com a religião. Nega-se a Cristo e a Virgem Maria através de cuspes e outros insultos. É mais recorrente a figura do homem como pactuante.
A caverna é o próximo obstáculo. Lá dentro está o Zupay e, para chegar até ele, é preciso entrar, vencer medos e desafios. Vozes, sussurros, mãos te empurrando e puxando, animais peçonhentos, são exemplos de obstáculos. Vencendo-os, encontra-se o diabo e o pedido é feito e concedido em troca de sua alma.

Aconteceu em algumas guitarreadas em Loreto – quando chegava cedo e ainda éramos poucos – de contarem naturalmente histórias sobre a salamanca. Muitas vezes escutei sobre caçadores que, atrás de viscacha, entravam monte adentro tentando acertar sua caça e sempre erravam. Assim, perseguindo o bicho, avançavam cada vez mais por lugares inóspitos. De repente escutavam uma música vinda de uma provável festa. Alguns entendiam o recado e, aí nomás, voltavam.

Há outros relatos de forasteiros que, ao perguntar sobre a salamanca, notaram as pessoas do lugar muito serias e pouco dispostas a falar. Não tratam como uma lenda, mas como uma realidade local que tem envolvimento com o diabo e logo com questões de arrependimento. “Estás seguro que quieres que te cuente sobre la salamanca?” Alguns se retiram do lugar quando questionados. Tem-se muito respeito sobre esse tema.

 São muitas as histórias sobre salamanqueros, mas foi só fevereiro de 2017 que escutei da boca de um suposto pactuante uma tentava de relato. Foi em Chilca Juliana, província de Santiago del Estero. Ele aparentava estar próximo dos 70 anos de idade. Dizia ter estado na salamanca e que sua família o havia salvo, libertado sua alma. Infelizmente não consegui entender muitos detalhes, pois, além de estarmos no meio de um festival, o relato era lento, em baixíssimo volume e com dicção claramente prejudicada pelas tantas garrafas de vinho já vazias sobre a mesa. Acreditar ou não, é outra questão. Mas foi uma experiência bastante interessante.

A relação do talento e negociação com o diabo não é exclusiva de Santiago del Estero. Na verdade, é um trato bem comum na arte – acredito que sobretudo na música. Está presente no blues quando o pactuante encontra o diabo numa encruzilhada e, também, no violino de Paganini, na Europa, no final do século XVIII. No Rio Grande do Sul, a lenda da Salamanca do Jarau tem grandes semelhanças com a de Sanago del Estero.

A TELESITA

Telésfora Castillo, popularmente conhecida como Telesita, era uma jovem órfã, com possível retardo mental, que habitava em Santiago del Estero. Segundo contam, andava vestida sempre maltrapilha, descalça. Viajava largas distâncias pedindo pouso, abrigo, comida. Sua paixão era a dança. Atraída pela música, pelo bombo leguero, que anunciavam alguma festa, se aproximava e bailava até amanhecer, de maneira cavante. Naturalmente roubava a cena, se tornava a alma dos bailes.

Dizem que, em uma noite fria, ela cansada se aproxima de uma fogueira no meio do monte santiagueño e dorme. O local se incendeia e Telesita, percebendo a irreversível situação, decide bailar até sua morte.

Há inúmeras versões sobre a vida de Telesita. Essa é apenas uma delas.
Até hoje se realizam Telesiadas, rezabailes para cumprir promessas feitas em nome de Telesita. Os promessantes oferecem uma festa, bailam sete meias chacareras. A cada meia chacarera dançada, se toma um trago de uma bebida forte – aloja, possivelmente. Quando terminadas as sete meias chacareras, se queima uma boneca (representação da Telesita) e se segue o baile com muita chacarera, gatos, zambas, escondidos, chamamés, guarachas! É comum a fartura de comidas e bebidas.

Telesita é conhecida como a santa de los perdidos. Normalmente os rezabailes em nome dela tem a intenção de encontrar um animal ou tropa perdida, algum familiar ou amigo desaparecido.

EL ALMA-MULA

Os muitos relatos que escutei contam de um grito estremecedor, de gelar a alma. Uma mistura de um grito aterrorizante de uma mulher com o de um porco sendo sacrificado. Me lembro de escutar a história de um conhecido que contava sobre sua experiência com o que, segundo ele, era el almamula.

Certa madrugada vinham por uma estrada rural no interior de Santiago del Estero três amigos, quando um dos pneus do carro furou. Desceram uns poucos minutos para trocá-lo. Já quando terminavam, foram surpreendidos por um grito vindo de longe. “Olhei para meus amigos perguntando se haviam escutado. Não sabíamos o que era”. Poucos minutos depois, voltaram a escutar o grito, dessa vez, mais perto, mais amedrontador. “nos olhamos de novo, desconfiados, mas não tínhamos nos dado conta até então.” Outra vez escutaram o grito, ainda mais perto. “Estava se aproximando. O grito era assim como contam, aterrorizante, de arrepiar, de gelar a alma. Ficamos de fato estremecidos com o grito. Nos olhamos assustados, petrificados. Entramos no carro imediatamente e seguimos viagem. Era el alma mula, chango! Era el alma mula”.

Trata-se de um animal parecido a uma mula, que corre arrastando correntes e cospe fogo e fumaça pelos olhos, narinas e pela boca. Dizem que costuma aparecer em noites que precedem uma mudança climáticas. Alma-mula, segundo contam, é o resultado de uma relação incestuosa.

Há também narravas sobre pessoas que enfrentaram el alma-mula com punhais ou armas de fogo. Costumam dizer que no dia seguinte se encontram manchas de sangue pelo caminho por onde teria fugido o animal ou até mesmo a aparição de um dos incestuosos com algum ferimento de difícil, incompleta ou superficial explicação.

Em 2017, no período em que estava gravando o disco Canto y Camino em Loreto, eu morava em um quarto em uma casa longe do centro da cidade, rodeado de campo, árvores navas e muitos animais. Era afastado de outras residências e muito escuro. Lembro de acordar, certa feita, com um grito que vinha de longe. Era um grito feio. Acordava de um sono profundo, estava bastante dormido ainda, naquele estágio de quem não sabe que horas são, onde está e nem quem se é. Ouvi outra vez o grito e, tal qual o relato, agora mais perto. Ouvi pela terceira vez e comecei a arrepiar todos os pelos do corpo. Acordei de vez! Na quarta vez que escuto, já bem desperto, reconheço o cantar de um galo. Era um cantar feio, quase irreconhecível. Não faço ideia do que aconteceu com esse galo para cantar de maneira tão rara. O fato é que, diferente dos outros relatos, esse animal era apenas um galo.

KAKUY

A lenda do Kakuy também tem relação com o incesto, ainda que muitas vezes seja contada de forma mais lúdica e adequada para as crianças. Trata-se do casal de irmãos Kakuy e Turay que ficaram órfãos ainda pequenos. Cresceram no meio do monte santiagueño, longe de qualquer vilarejo habitado, expostos a todos os riscos que oferecia o lugar. Segundo contam, Kakuy desde pequeno se ocupava da caça, da plantação do maíz, buscava mel e água fresca. Turay cuidava dos afazeres do lar, para que tudo estivesse devidamente preparado quando ele chegasse.

O irmão se tornava cada vez mais amável e solícito, enfrentado o que precisasse para levar sempre o melhor para a casa. A melhor caça, a água mais fresca e cristalina, algarrobas doces, mistol, mel, tuna. Kakuy trazia tudo que podia e já não media esforços para encontrar do melhor. Turay notava que o irmão a tratava cada vez mais caprichosamente e já a observava de outra maneira. Começou a se blindar e silenciosamente a se defender. A relação foi piorando. Kakuy voltava depois de largo dia de trabalho trazendo tudo que podia, mas já não encontrava nada em casa. A carne estava apodrecida, não tinha algarrobas, o mel havia acabado, assim como o mistol e até mesmo a água fresca. Tudo de propósito como forma de defesa de Turay.

Um dia, cansado da forma como estava sendo tratado e recebido pela irmã, sem ter sua cordialidade e anseios correspondidos, contou para Turay que havia encontrado uma árvore milenária, bastante longe. Procurou as melhores palavras para descrever a qualidade do mel lá avistado. Conseguiu convencer Turay a acompanhá-lo.

Saíram na manhã seguinte, bem cedinho. Kakuy, muito conhecedor do monte, foi guiando. Apesar de calados, todo o esforço de Kakuy para convencer Turay, a fazia crer que seu irmão estava mais amável e atencioso. Caminharam por horas até chegar na árvore milenária. Era imensa. Kakuy apontou para o topo da árvore dizendo que lá estava o mel mais puro que alguém poderia encontrar. Turay, que nunca havia afastado tanto seus pés da terra, começou a subir, com ajuda de seu irmão. Quando chegou no último galho, Kakuy começou a descer, quebrando todos os galhos que poderiam servir de apoio para sua irmã. Sem olhar para trás, foi-se até se perder na paisagem. Turay, com gritos de lamento, chamava Kakuy, buscava por seu irmão. As horas foram passando, a noite chegando e ela sozinha no topo da árvore, sem nenhum sinal de Kakuy. Já tonta, atordoada pela condição que se encontrava, percebeu, como num soco, uma mudança em seu corpo, agora repleto de penas, sua boca como um bico e, ao invés de braços, asas. Um grito paru a noite. Triste, do mais profundo lamento como quem implorava pelo retorno do Hermano Kakuy, que nunca mais apareceu. Ela se transformou na ave, de triste canto, noturna, camuflada nos galhos, imperceptível e por isso, quase impossível de encontrar.

Essa ave é conhecida em Santiago del Estero como Kakuy. Também chamada de Urutau e em alguns lugares do Brasil como mãe-da-lua. Tem o canto triste e hábitos noturnos. De dia, se camufla nos galhos das árvores sendo muito difícil encontrá-la.
Há muitas músicas que falam do Kakuy. A que teve maior repercussão se chama Hermano Kakuy, é uma chacarera simples, escrita por Juan Carlos Carabajal e que ficou conhecida nas vozes de Jacinto Piedra e Peteco Carabajal.

TANICU

No primeiro domingo de outubro, é comum encontrar os moradores de Salavina com mesas fartas, abundância de comida e bebida. Isso porque, segundo a crença, é o dia em que Tanicu passa por Salavina.

Ele é a representação da miséria, da escassez. Também chamado de deus da carestia, protetor quando há oferenda e castigador quando não prestam devida homenagem. Contam que, se Tanicu entra em uma casa onde não tenha comida, nela fica e permanece até o outubro do ano seguinte, trazendo miséria e escassez. Já quem oferece com fartura, a esses não faltará alimento durante todo o ano.

Alguns dizem que a figura do Tanicu é de um homem magro e baixo, aparentemente faminto. Também dizem que vem montado em algum animal como uma cabra que se aproxima das casas ao escutar o som do morteiro moendo o milho. Se alimenta dos grãos que caem ao redor desse morteiro. Contam que ele fica desgostoso quando batem o morteiro vazio sem grãos, já que não encontra alimento. É a festa da abundância e da alegria. Cozinhase o suficiente para sobrar. Receitas populares, características do local como o locro, a chanfaina, empanadas, tortillas salavineras. É de costume também a música e a dança.

Hoje em dia, o festival do Tanicu em Salavina é organizado no segundo fim de semana de outubro. Os motivos são para preservar o primeiro domingo como festa apenas local, mas também por questões comerciais, quando as pessoas já receberam seus salários e podem viajar a Salavina para festejar. La Fiesta de Tanicu cresceu muito nos últimos anos, sendo uma das festas que mais atraí turistas de toda a província de Santiago del Estero, Córdoba, Santa Fé, Tucumán. Toca-se chacareras, chamamés, guarachas. Há muita terra e é comum ver, durante a tarde, as pessoas acomodadas nas sombras dos algarrobos. Costuma durar até o amanhecer de Domingo.

PRIMEIRO DE AGOSTO E O CHÁ DE ARRUDA

O mês de agosto traz consigo certo receio referentes a doenças, pestes, enfermidades. É um mês onde muita gente adoece, vem a óbito. Acredita-se que tomar o chá de arruda – preparado preferencialmente a partir das plantas machos (folhas maiores) – assegura um ano a mais de vida. Por isso há o costume de receber o mês de agosto tomando um bom té de ruda macho. De fato, escuta-se muito das abuelitas que “quem supera o mês de agosto, ganha mais um ano de vida”.

A arruda, quando colocada em frente a porta de casa, é usada para afastar mau-olhado, evitar o gualicho, quase sempre fruto da inveja alheia.

Primeiro de agosto também é conhecido por marcar o fim do período de seca. Em algumas regiões da Argenna e América Lana, é dia de celebrar a pachamama (madre erra). Se abre a terra para fazer oferendas e se pede licença para plantar.

LA MUERTE DEL ANGELITO

Essa poderia ter sido uma das experiências mais marcantes em toda a estadia em Santiago del Estero. Por sorte, não precisei presenciar, apenas escutar. É considerado angelito a criança que morre muito pequena, sem cometer pecados, pura. É uma tradição muito anga que vai se perdendo aos poucos sobretudo por falta de rezadoras, as protagonistas do velório.

Quando morre um angelito não se deve chorar, mas sim celebrar. Dizem que o choro pode molhar suas asinhas impedindo-o de voar até o céu. Prepara-se todo o lugar onde é realizado o velório com lençóis brancos ou azul-claros, enfeitando com estrelas douradas ou prateadas. Uma mesa cumpre o papel de capela, adornada com velas e flores. Nela põe-se o cadáver do angelito com um par de asas de papel para que possa voar.

Durante a noite, há comida e bebida, além de muita música e dança folclóricas. A cada tanto, entram as rezadoras, quase sempre senhoras já com bastante idade, com voz gasta e afinação imperfeita, cantando alabanzas, bagualas bastante sendas.
Ao amanhecer, canta-se o Triságio. Os pais e padrinhos bailam muitas chacareras, com giros e vueltas para ajudar o vento a levar o angelito até o céu. Caso contrário, nas noites de frio, ele sente-se abandonado e pode vir a chorar perto do rancho dos familiares, pedindo abrigo.

Há muita festa, afinal, o angelito cuidará de toda a família. A ele serão dirigidas as preces dos familiares que agora terão alguém que interceda junto a Deus.

FESTAS POPULARES

Em toda a província de Santiago del Estero é comum encontrar festas populares que começam já nos primeiro dias de janeiro se estendendo até os úlmos dias de dezembro.
O ano começa com o tradicional Festival de la Chacarera, na capital Santiago del Estero. Os meses de janeiro e fevereiro são bastante agitados. Cada pueblo tem seu aniversário muito bem comemorado, seu santo para oferecer rezabailes, regado a chacareras, chamamés e guarachas.

Conheci algumas dessas festas. As Trincheras de Salavina e também o Tanicu, na mesma cidade. As Trincheras de Brea Pozo, o festival de Atoj Pozo, aniversário de Chilca Juliana, a Salamanca em La Banda, o Festival Loretano, a festa da Virgem de Loreto. Enfim, são inúmeros festivais durante todo o ano.

Em agosto se comemora o aniversário da Abuela Carabajal, família de muitos músicos referentes e importantes no folclore santiagueño. É realizado em agosto em Los Lagos, humilde bairro da cidade de La Banda. Também há importantes comemorações no mês de julho como a Marcha de Los Bombos, aniversário da Sachaguitarra, em Atamisqui, o aniversário de Sanago del Estero dia 25.
Também tem destaque os festivais de Ojo de Água, Sumampa, Mailín. São muitos durante todo o ano.

São santos populares o San Gil, San Esteban, Gauchito Gil, Telesita, Virgen de Loreto, Mama Antula.

ALGUMAS COMIDAS E BEBIDAS

ALGARROBA (BLANCA OU NEGRA) – Fruto bastante doce dá árvore algarrobo – verão.
ALOJA – Bebida alcoólica feita a parr da algarroba
AÑAPA – Sobremesa feita a parr da algarroba
ARROPE – Tem a espessura de mel. Pode ser feita de chañar, algarroba, mistol, tuna. Alguns casos, servem para fins medicinais.
CHAÑAR – Árvore e frutos. O chá de chanãr se faz a partir da casca da árvore e ajuda em enfermidades respiratórias.
CHANFAINA – Comida de origem humilde. Feita a partir de menudos de cabrito, fervidos, picados e fritos.
CHIPACO – Como uma tortilla, mas com pedaços de graxa de vaca ou de porco (chincharrón).
GUISO – Comida muito popular. Como um carreteiro, bastante condimentado. Pode ser feito com massa ao invés de arroz.
MATE DULCE – Com açúcar ou adoçante, pode-se acrescentar poleo, cedrón e outros yuyos.
MAZAMORRA – Como uma canjica. Comida humilde, rica em nutrientes.
MISTOL – Fruta avermelhada, pequena e doce. Se junta do chão para comer.
PATAY – Doce feito a partir da algarroba.
QUEBRACHO – Árvore de madeira muito dura. Foi muito usada para os dormentes dos trilhos de trem e para móveis. Também se usa para fabricar o aro do bomboleguero
ROSQUETE – Doce feito com farinha, anis, graxa de vaca ou manteiga e uma espécie de glacê. Tem forma de rosca como um donuts.
TORTILLA – Massa com graxa, farinha e água. Assada a la parrilla ou no forno de barro.
TUNA – Vermelha e amarela. Fruta com muitos espinhos finos que causam dor e coceira. Necessário cuidado para colher e descascar.
VINO SODEADO – Vinho misturado com água com gás e gelo. Também costumam tomar com Fanta ou Sprite.

MÚSICAS

ALMA DE REZA-BAILE (chacarera simples) Agustín e Carlos Carabajal
CHACARERA DEL CRESPÍN Sanago Suarez
DIGO LA MAZAMORRA (Canción) Antonio Esteban Aguero e Peteco Carabajal
DIGO LA TELESITA (Chacarera doble) Marcelo Mitre
ESCONDIDO DE LA ALABANZA (escondido) Carlos Carabajal e Hnos Simón
HERMANO KAKUY (chacarera simples) Juan Carlos Carabajal e Jacinto Piedra
LA TENTACIÓN (chacarera simples) Elpídio Herrera
TELESITA (chacarera simples) Agusn Carabajal e Andrés Chazarreta
TRADICIONES SANTIAGUEÑAS (chacarera doble) Pablo Raúl Trullenque e Carlos Carabajal

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