Marcos Saporiticanto y camino Contato
A história

Uma viagem de sete dias que durou anos

Do rock aprendido num caderno de cifras às escolas rurais de Loreto. Um resumo do caminho contado no meu trabalho de conclusão em Música Popular na UFRGS.

Caminhando pelo monte santiagueño, entre arbustos e terra seca
2012Salta · Porto Alegre

Antes da chacarera

Aprendi violão sozinho, com um caderninho de acordes do meu irmão, tocando rock. Me formei em Publicidade, toquei na Central Station de Sydney para pagar as contas e organizei noites de música e empanadas num hostel de Buenos Aires.

Em 2012, na Casona del Molino, em Salta, vi gente tocando folklore em cada cômodo da casa, com conversa, risada e lágrima entre uma música e outra. Voltei decidido a estudar música. Entrei na UFRGS e procurei Marcello Caminha para aprender os ritmos gaúchos. Foi ele quem disse, ao perceber o que a música do norte argentino fazia comigo:

"Se é o que tu sente, te joga."

2014Santiago del Estero

A chegada

Desembarquei em Santiago del Estero numa madrugada de fevereiro, com o violão e um caderno comprado na rodoviária de Santa Fé. Às nove da manhã fazia 32 graus. Às duas da tarde a cidade estava deserta e eu me perguntava o que fazia ali. Era a siesta.

Numa livraria, a Luciana pegou o telefone: "Ale, escuchá, estoy con un músico de Brasil que quiere aprender folklore." Naquela tarde, o folklorista Ale Carabajal me explicou em folhas de papel a chacarera simple, a doble e a trunca. À noite fomos ao Festival de la Salamanca. Quando tocou a primeira chacarera, o festival inteiro levantou as mãos para dançar. Parei de olhar o palco. O espetáculo era o público.

Ia ficar uma semana e fiquei vinte e três dias. Em julho voltei para ficar quase sete meses.

2014Loreto · Atamisqui

As escolas rurais

Na escola de professorado artístico de Santiago del Estero conheci Martin Medina, maestro das escolas rurais perto de Loreto e Atamisqui. "Mucho de lo que se escribe en las letras de folklore tiene origen en el campo", ele me disse. E me levou.

Fomos de moto por trinta quilômetros de terra e salitre até escolas com cinco alunos. Eu contava do Brasil e tocava Noel Guarany e Yupanqui. As crianças me ensinavam o nome das plantas, as lendas do monte, as comidas de casa. Em Lomitas conheci Doña Evarista, quase centenária "de registro", que contou do avô que fugiu a pé da Guerra do Paraguai.

Marcos toca violão numa escola rural, com uma cabra ao lado Alunos sentados em roda no pátio de terra de uma escola rural

Dessas visitas nasceu a primeira chacarera que compus em Santiago del Estero, Pa los Pagos de Loreto, lapidada com a ajuda do folklorista Chingolo Suarez.

2015Jesús María · Cosquín

Os festivais de Córdoba

Com o dinheiro no fim, fui aos grandes festivais de Córdoba. Em Jesús María toquei nove noites nas tendas, passando o chapéu e dormindo ao relento abraçado ao violão.

Em Cosquín, um produtor de Peteco Carabajal me pediu algo diferente. Passei a noite fazendo uma versão em português de "Para los ojos más bellos". No dia seguinte subi ao palco da peña de Peteco, apresentado como "un chango que viene de Brasil a tocar chacareras en portugués".

2015Porto Alegre

A chacarera no Sul

De volta, formei com Querim Zanette o Duo Saporiti – Querim. Juntaram-se a Companhia de Danza La Marrupeña Brasil e os Brincantes do Paralelo 30, grupo de extensão da UFRGS, onde dei a primeira oficina de chacarera. Tocamos na Estância de São Pedro, na Casa de Cultura Mario Quintana, no Comitê Latino-Americano e no Teatro Renascença.

Nos encontros de compositores de Taquari e Ijuí, onde se compõe uma canção numa noite a partir de um tema, nasceram com o Querim a zamba "Fortunas da Vida" e o gato "Canto y Camino".

Dois violonistas cantam lado a lado diante da bandeira de Santiago del Estero
Un Domingo Santiagueño, 2017 · Foto Lucas Saporiti
2016Loreto

A gravação em Loreto

Dois colegas ouviram minhas demos e perguntaram: "por que tu não grava lá na Argentina?" Toquei em feiras, no Brique da Redenção e em bares até juntar o dinheiro. Em outubro de 2016 voltei a Santiago del Estero.

Gravamos no estúdio de Matias Ledesma, em Loreto, com Yvan Herrera e mais de dez músicos loretanos. No caminho houve um ouvido tapado, um polegar machucado, um quarto sem pia e uma galinha dentro de casa. E chegaram canções novas: uma guaracha, um gato para o aniversário de um vizinho e uma vaneira de despedida, cujo refrão gravamos com vários cantores loretanos na véspera da volta.

Violinista grava no estúdio em Loreto Mesa de som do estúdio em Loreto
2017Porto Alegre · Loreto

O disco no mundo

Fiz a arte, registrei as músicas, financiei mil cópias numa campanha coletiva e lancei o disco em dezembro de 2017. No mesmo ano realizei um sonho antigo, o Un Domingo Santiagueño.

Em 2018 voltei a Loreto para apresentá-lo na Parrilla Don Máximo, com os músicos da gravação e o pátio cheio de bailarinos. Com La Marrupeña, viajei a Santa Isabel, em Santa Fé, para os 45 anos da companhia.

2021UFRGS

Silêncio, escrita e retorno

Depois do disco veio um tempo difícil, de pouco retorno e muita dúvida. Na pandemia me afastei dos instrumentos, desenhei, pintei e escrevi um conto por dia.

No trabalho de conclusão em Música Popular na UFRGS, orientado pela Profa. Dra. Caroline Soares de Abreu, contei esta história como pesquisa autoetnográfica: Canto y Camino: vivência cultural como fonte de inspiração artística.

Ler o trabalho completo · PDF

Parceria

Duo Saporiti – Querim

Querim Zanette, músico de Vacaria, é coautor de "Canto y Camino" e "Fortunas da Vida". Juntos levamos a chacarera a palcos, festas e encontros de compositores no Rio Grande do Sul, quase sempre com os bailarinos do Paralelo 30 e de La Marrupeña.

Duo de violões no palco do Un Domingo Santiagueño
Compañeros de camino

Martin Medina

Maestro rural. Abriu as portas das escolas de Loreto e Atamisqui. A arte do disco foi inspirada em fotos dele.

Yvan Herrera

Músico de Loreto, parceiro na gravação e voz no dueto bilíngue de "Canto y Camino".

Matias Ledesma

Produtor e arranjador. O disco foi gravado no estúdio dele, em Loreto.

Faby Mansilla

Cantor loretano. Nas noites de guitarreada em Loreto, contava as histórias da salamanca e do almamula. Voz no disco.

Luis Quiroga

Músico de Loreto. Quena, sikus e voz em "Canción de Pedrito", e coro de "Volviendo al Pago".

Chino Córdoba

Músico loretano, amigo do dia a dia da gravação e voz no refrão de "Volviendo al Pago".

Ale Carabajal

Folklorista e primeiro mestre em Santiago del Estero. Abriu a casa e as primeiras folhas de chacarera.

Chingolo Suarez

Folklorista, compositor e maestro rural. Ajudou a lapidar "Pa los Pagos de Loreto".

La Marrupeña Brasil

Companhia de dança dirigida por Juan Ignacio Sunde. Parceira de palco, cursos e viagens.

Paralelo 30

Brincantes da UFRGS, coordenados por Jair Umann. Os primeiros a dançar espontaneamente nos nossos shows.

Chango Duarte

Bombisto e letrista. Parceiro na chacarera doble "La del Brasileño".